LIVEDO RACEMOSO E SUA INVESTIGAÇÃO

Inserida em: 08/02/2018

2013 — 68º. CONGRESSO SBD (*)

Nelson Guimarães Proença

 

Neste 68o. Congresso Brasileiro de Dermatologia fui convidado para apresentar o tema “Livedo”. Eis um tema, da Dermatologia, que não é fácil de ser sistematizado. A razão: algumas questões conceituais ainda não estão bem estabelecidas. Eu o tenho revisto, com alguma frequência e, na oportunidade que estou tendo hoje, achei que seria interessante fazer uma pequena “Introdução”. 

Primeira questão a ser respondida: estando presente o livedo, há sempre um processo patológico a ser investigado? 

A resposta é: “Não!”. Antes de tudo, o livedo deve ser encarado como uma lesão elementar e, como tal, deve ser incluído no grupo das “manchas”. Faz parte das “manchas vasculares”. Recorde-se que o termo vem do latim, “livor”, literalmente traduzida como “lividez”, o que é uma referência à cor azulada do cadáver: “lividez cadavérica”. O termo “livedo” foi sugerido por Kaposi, para designar o desenho da rede vascular da pele quando ela exibe esta tonalidade azulada.

A segunda questão é: a presença de livedo pode ser, simplesmente, uma resposta fisiológica do sistema capilar da pele?

A resposta agora é “Sim!”. O livedo pode ser simplesmente fisiológico, como acontece em indivíduos normais que ficam expostos ao frio. A rede capilar venosa da pele fica então desenhada, sobretudo nos membros, mas basta o aquecimento do corpo, para que o livedo desapareça.

A terceira questão diz respeito ao mecanismo que leva ao livedo.

Trata-se de uma estase venosa, no sistema capilar da pele. Mas não porque o fluxo do sangue venoso esteja encontrando algum obstáculo, a sua frente. Veja-se o caso das varizes dos membros inferiores. O refluxo através das veias comunicantes perfurantes, que estão insuficientes, aumenta a pressão venosa no sistema capilar da extremidade. Disto resultam rupturas capilares, com aparecimento de pontos purpúricos. Caracteriza-se aqui a angiite pigmentar de Favre e Chaix. Trata-se de púrpura, não de livedo.

Então, não havendo aumento da pressão venosa adiante, impedindo a progressão do sangue, deve haver menos impulso atrás, consequente a algum processo na rede capilar arterial. É exatamente isto o que acontece, determinando o aparecimento do livedo.

Tomemos como referência a alça capilar que faz a junção dos sistemas arterial e venoso. Estando os capilares arteriais “pré-alça” com alguma redução de sua luz, fica reduzido o fluxo em direção ao capilar venoso “pós-alça”. É isto que ocasiona a estase na rede capilar venosa da pele, logo adiante. Por que a cor azulada? Porque há redução na saturação de oxigênio.

Esta redução do fluxo pode ser o resultado de um processo fisiológico como, por exemplo, a já citada exposição ao frio. Mas podem estar presentes alterações da parede vascular do capilar arterial, “pré-alça”. Agora, sim, estamos falando de processos patológicos.

São inúmeras as causas de livedo patológico. A melhor coletânea destas causas, na literatura médica, está na Oitava Edição, 2010, de Rook’s Textbook of Dermatology e foi organizada por NH Cox (Carlisle, UK) e WW Prette (Chicago, USA). Vamos transcrevê-la, concedendo o crédito aos Autores.

1) Doença Vascular Associada

Vascularite (especialmente Poliangiite Microscópica), Periarterite Nodosa Cutânea, Vascularite Reumatoidea, Crioglobulinemia Mista, Arterite Temporal, Síndrome de Sneddon (ver abaixo micro fotografia), Vascularite Livedoide (Atrophie Blanche, Milian), Arterioesclerose.

2) Doença Reumática

Lupus Eritematoso Sistêmico, Dermatomiosite, Esclerodermia, Síndrome de Sjögren, Síndrome de Anticorpos Antifosfolípides.

3) Viscosidade Sanguínea Aumentada (fluxo diminuído)

Policitemia (rubra vera), Trombocitose, Crioglobulinemia, Criofibrinogenemia, Aglutinemia pelo frio, Gamopatia Monoclonal, Hipergamaglobulinemia.

4) Doenças Hipercoagulantes e Embólicas

Êmbolos de Colesterol, Êmbolos Trombóticos (Doença Vascular Cardíaca, Aneurisma com Embolização), Êmbolos de Oxalato, Síndrome da Descompressão Brusca (com embolização por bolhas de Nitrogênio), Embolização por Gás de Ventilação, Síndrome de Anticorpos Antifosfolípides, Tromboflebite.

5) Infecção

Endocardite, Angiite por Riquetsia, Púrpura Fulminante Meningocócica, além de Sífilis, Tuberculose, Viroses.

6) Endócrina

Hiperparatiroidismo, Pseudo-hiperparatiroidismo, Hipotiroidismo, Doença de Cushing, Síndrome Carcinoide, Feocromocitoma.

7) Nutricional

Pelagra

8) Iatrogênica

Bismuto (intrarterial),Catecolaminas/Fenilefedrinas, Amantadina, Quinidina (no LE induzido por drogas), Arsfenamina.

 

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(*) Apresentação feita no 68o. Congresso Brasileiro de Dermatologia, Brasília, 2013, no “Curso Especial: Vasculopatias”.






Palavras-chave: Livedo; Livedo racemoso; Livedo; Racemous livedo; Livedo; Livedo racemosa\r\n