ESCABIOSE DIAGNÓSTICO PELO MÉTODO DA FITA DUREX

Inserida em: 27/06/2017

2013 — JORNAL DERMATOLÓGICO — SBD/RESP (*)

 

Nelson Guimarães Proença (*)

 

Sendo este o ano do Centenário da Sociedade Brasileira de Dermatologia, não é demasiado recordar contribuições que, em nosso país, foram dados para a especialidade. Uma modesta, porém válida contribuição, pudemos dar ao descrever um método simples que permite identificar o Sarcoptes scabiei, em pacientes com escabiose. 

Na década dos anos sessenta trabalhávamos no Hospital Adhemar de Barros, de São Paulo, também conhecido como “Hospital do Pênfigo Foliáceo” e “Hospital do Fogo Selvagem”. Isto nos permitiu observar a ocorrência de infecções e infestações cutâneas, que ocorriam de modo recorrente, na população internada. Para situar melhor o cenário de então, vamos recordar que estávamos nos primórdios da utilização de corticosteroides, por via sistêmica e, ainda, na fase de observar resultados e estabelecer quais as dosagens mais adequadas. As internações eram prolongadas e tínhamos, em média, duzentos e cinquenta pacientes internados. Estes pacientes, internados por longos períodos, tinham imunodepressão medicamentosa, resultante do uso de corticosteroides em doses elevadas. Ambas as condições — internação prolongada e imunodepressão — favoreciam a ocorrência de micro epidemias, infecciosas ou parasitárias. E foi exatamente isto o que aconteceu, em decorrência de infecção por agentes micóticos, como o Trichophyton rubrum (1), ou por agentes virais, como o Herpesvirus hominis e o HPV (2,3,4).

No Estado de São Paulo o Sarcoptes scabiei já havia provocado um grande surto epidêmico de escabiose, na década dos anos trinta. Desde então o parasita praticamente havia saído de cena, em nosso Estado. Durante trinta anos sua ocorrência foi tão excepcional que, um caso isolado de sarna crostosa (“norueguesa”), observado em 1959, mereceu ser publicado em nossos Anais (5).

Quando um surto de lesões pruriginosas se iniciou, no Hospital Adhemar de Barros. Os pacientes se queixavam de crises de prurido noturno, que muitos diziam ser insuportáveis. Como eles também apresentavam certa piora das lesões atribuíveis ao pênfigo foliáceo (fogo selvagem), a primeira interpretação foi de exacerbação da moléstia de base e isto retardou o diagnóstico correto.

No primeiro semestre daquele ano, 1969, parecia que todos os pacientes estavam contagiados. Logo a seguir, o mesmo passou a acontecer entre os funcionários que tinham contato direto com os internados. Suspeitada a escabiose, a confirmação do diagnóstico clínico foi tentada através do exame de escamas, coletadas por raspado e clarificadas pela potassa, a 20%. Este era o procedimento usual, até então, para confirmar o diagnóstico. Nem sempre, porém, era possível visualizar o Sarcoptes scabiei, apesar da clínica ser muito sugestiva.

Foi então que imaginamos utilizar o que denominamos “método da fita-durex”. Utilizando este adesivo coletamos material em tiras sucessivas, obtidas da mesma lesão e colocadas lado a lado, na lâmina. Tomávamos cinco tiras, de cada lesão, para o preparo de uma lâmina. O exame ao microscópio precisava ser feito imediatamente após a coleta do material. Não se deveria deixar passar o tempo pois certas substâncias, que compõem o adesivo, são cáusticas e desfazem o envoltório de quitina do parasita, após algumas horas. 

Tornou-se relativamente fácil comprovar a presença do Sarcoptes. Os resultados que obtivemos, muito animadores, permitiram a publicação de uma Nota Prévia (6). Desde então, já por mais de quarenta anos, utilizamos este método para comprovar o diagnóstico clínico de escabiose. Claro que sempre procurando uma lesão típica: um túnel entre os dedos, ou nas axilas, ou na região genital, por exemplo.

No Hospital Adhemar de Barros, uma vez comprovada a origem da micro epidemia conseguimos — embora com dificuldade — controlar a situação. Nossos pacientes estavam tão intensamente parasitados que este foco talvez tenha tido algum papel disseminador da ectoparasitose, na grande epidemia que a seguir ocorreu no Estado de São Paulo. Recorde-se que o início desta epidemia ocorreu exatamente no segundo semestre de 1969 e no início de 1970. Tendo alcançado seu apogeu entre os anos de 1974 e 1978. 

Para ter êxito no emprego do método da fita-durex, há cuidados que precisam ser observados. É preciso escolher, corretamente, a lesão da qual vai ser coletado o material. No sexo masculino, a melhor lesão é a genital, tanto a escrotal como a peniana. É adequada, tanto a lesão pápulo-nodular, como o túnel intraepidérmico (Fig 1 e 2).

Em ambos os sexos são também apropriadas as lesões localizadas em pregas: axilares ou interdigitais das mãos. Deve-se escolher as que tenham o aspecto clínico de túneis ou de pápulas. Não devem estar escoriadas pois, neste caso, o parasita já foi mecanicamente removido.

Em crianças, sobretudo nas menores (ou em lactentes), a demonstração da presença do parasita é bem mais fácil. São muitos os túneis que estão intactos, sobretudo na face posterior do tronco, pois este local é difícil de ser alcançado, pelo ato de coçar. Em lactentes, outro local ideal para a coleta, são as regiões palmares e plantares. 

Qualquer que seja a lesão de origem, ao microscópio os achados são tão típicos, que basta um parasita, ou um só ovo, para fazer o diagnóstico (Fig 3,4).

A utilização habitual do método permitiu contraditar uma afirmação que vem sendo repetida, secularmente, em livros de texto. A afirmação de que as fêmeas são capazes de postar mais de meia centena de ovos. Isto não parece acontecer. Como a fita-durex remove completamente o túnel e seu conteúdo, pudemos constatar a presença de, no máximo, oito ovos. É comum encontrarmos seis ou sete ovos no túnel (Fig 5,6), permanecendo o(os) restante(s) no ventre da fêmea (Fig 6). A transformação dos ovos em ninfas se dá dentro do túnel. Outro fato a assinalar é que, nos túneis, não encontramos machos (Fig 7). Os machos são ocasionalmente demonstrados em áreas fortemente infestadas, principalmente em região genital masculina, ou em lactentes. A conclusão que se impõe é que a fecundação se dá na superfície cutânea, cabendo à fêmea a penetração na epiderme, para a postura dos ovos.

Em 1970 fizemos ampla documentação fotográfica, dos parasitas, demonstrados pelo método proposto. Colaborando com o ensino, ofertamos coleções para diferentes Clínicas de Dermatologia, do País, inclusive a Clínica de Dermatologia do Hospital das Clínicas da USP. Tenho exemplar da 3a. Edição do Tratado de Dermatologia, 2007, de Sampaio e Rivitti, autografado pelo autor. Nele está publicada uma foto de um túnel com ovos (página 767), da coleção que ofereci para o arquivo fotográfico. Está imagem, de um túnel completo, só se consegue pelo método da fita-durex, que preserva o túnel. Não se consegue o mesmo pelo raspado, que destrói o túnel. 

Como recorro habitualmente ao método da fita-durex, para o diagnóstico de certeza, continuo considerando que ele é útil, pois alcança o objetivo proposto. Mas não foi incorporado à prática médica. Por que não tem sido utilizado? A razão, ao que parece, é a dada pelos próprios especialistas. São raros os dermatologistas, hoje, que coletam e examinam, pessoalmente, o material coletado. Esta prática está em desuso. A quase totalidade dos profissionais solicita os exames apropriados e, então, encaminha seus pacientes aos laboratórios de análises clínicas. Acontece que estes laboratórios não conhecem e, portanto, não praticam, o método da fita-durex.

A seguir vamos fazer uma apresentação do material que é observado, na cínica e ao microscópio. 

REFERÊNCIAS
1) Castro RM, Proença N, Cardoso AEC and Sampaio SAP – Endemic Trichophytosis in Brazilian Pemphigus Patients. Mykosen 1970, 70: 274.
2) Proença N e Salles-Gomes LF – Herpes Simples Circunscrito da Face em Portadores de Pênfigo Foliáceo. Ver Paul Méd 1961, 59: 28.
3) Proença N, Castro RM, Rivitti E e Salles-Gomes LF – Erupção Variceliforme de Kaposi por Herpesvirus hominis em doentes de Pênfigo Foliáceo Sul-americano. Dermatol Ibero Lat Amer 1972, 4: 443
4) Castro RM, Proença N e Salles-Gomes LF – On the Association of Some Dermatoses with South American Pemphigus Foliaceus. Int J Dermatol, 1974, 13: 271
5) Souza AR e Proença N – Um Caso de Sarna Norueguesa. An bras Dermatol 1959, 34: 49
6) Proença N – Identificação Laboratorial do Sarcoptes scabiei em Doentes de Escabiose. Rev paul Méd 1969, 75: 303.
(*) Jornal Dermatológico, 2013. 175: 12-15. SBD/Regional São Paulo.








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