ACANTOMA EPIDERMOLITICO DA REGIÃO ESCROTAL

Inserida em: 25/05/2019

DERMATOLOGIA BASEADA EM EXPERIÊNCIA

2006 — Anais Brasileiros de Dermatologia (*)


ACANTOMA EPIDERMOLITICO DA REGIÃO ESCROTAL

Relato de Casos

EPIDERMOLYTIC ACANTHOMA OF THE SCROTUM

ACANTHOMA EPIDERMOLYTICUM SCROTALIS


Nelson Guimarães Proença (*)

Nilceo Michalany (**)

RESUMO

São apresentados dois casos de acantoma epidermolítico da região escrotal. Trata-se de homens com 52 e 68 anos de idade, respectivamente tendo 21 e 5 lesões. As lesões eram assintomáticas. O exame anátomo-patológico foi característico, mostrando hiperplasia da epiderme com alteração epidermolítica da porção superior da camada espinhosa, que se estende até a camada granulosa. Casos como estes não têm sido publicados, até aqui, no Brasil. O registro dos casos foi feito para despertar o interesse de dermatologistas e urologistas, por uma afecção que não parece ser tão rara, conforme tem sido afirmado.

EPIDERMOLYTIC ACANTHOMA OF THE SCROTUM


SUMMARY

The authors present two cases of epidermolytic acanthoma of the scrotum. The men are 52 and 68 years old. The first one has 21 and the second 5 lesions. The lesions did not cause any symptoms. The pathological analysis was characteristic, showing an epidermal hyperplasia with epidermolytic alterations of the superior layers of the stratun spinosun, just up to the granular layer. Such cases have not been published in Brazil. They were registered with the purpose of calling attention of dermatologists and urologists to a disease that does not seem so rare as it has been claimed.

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INTRODUÇÃO

Em 1970 Shapiro & Baraf (1) relataram seis casos de lesões solitárias (escroto, ânus, pálpebra, região geniana, perna) e um caso com múltiplas lesões (escroto), cujo estudo anátomo-patológico mostrou que se tratava de um espessamento da camada malpighiana (acantoma) associado à presença de alterações epidermolíticas, ao nível da camada granulosa da epiderme. Entendendo que se tratava de um quadro não descrito antes, deram a denominação de acanthoma epidermolyticum (AE). 

Nos 30 anos que se seguiram foram poucas as comunicações a respeito do tema (2-8), o que deixou a impressão de se tratar de afecção bastante rara. Não obstante, temos observado que, pelo menos no que se refere à região escrotal, não é tão rara assim. Tivemos oportunidade de observar vários pacientes com este tipo de lesão cutânea escrotal, nos últimos anos, em dois dos quais procedemos à biópsia, a qual permitiu firmar o diagnóstico.


RELATO DOS CASOS CLÍNICOS

Ambos os pacientes eram de raça branca, um de origem italiana e, o outro, de origem árabe. Tinham respectivamente 52 e 68 anos. O primeiro consultou por ter notado a presença das lesões, que já persistiam por dois anos, sem apresentar modificações. O segundo não havia percebido que tinha lesões, tendo as mesmas sido avistadas durante um exame dermatológico. Em ambos os casos as lesões estavam disseminadas na região escrotal, somando 21 no primeiro paciente e apenas 5, no segundo. Apresentavam-se como pápulas ovaladas ou em forma de disco, com diâmetro variável entre 2 e 6 mm. A superfície era absolutamente plana e de cor mais clara do que a pele da região escrotal, violácea clara, variando a tonalidade do acinzentado ao esbranquiçado (Figuras 1A e 1B). Eram assintomáticas, mas estavam suficientemente desenvolvidas a ponto de despertar a atenção dos pacientes. No primeiro caso pensamos que se tratava de uma infecção pelo HPV, tendo procedido à tentativa de demonstração da presença do vírus, pela técnica de hibridização, a qual resultou negativa. O exame anátomo-patológico deste paciente mostrou o aspecto característico do AE (Figuras 2A e 2B), conforme já descrito anteriormente (1,9). A experiência vivida com esse primeiro caso nos permitiu fazer o diagnóstico clínico correto do segundo, o qual foi a seguir confirmado pelo exame anátoma-patológico. 


DISCUSSÃO

AE foi descrito em diferentes localizações, a saber: pálpebra (1), região geniana (1), perna (1), ânus (1), dorso (4,5), antebraço (7). Na região escrotal há registro anterior de três casos (1,3), aos quais agora acrescentamos mais dois. Na maior parte das comunicações trata-se de lesão solitária, mas também foram descritas lesões múltiplas, sobretudo na região escrotal (1) e na região dorsal (4-6). Em um paciente transplantado de rim, imunodeprimido por drogas, foram encontradas centenas de lesões de AE distribuídas pelo couro cabeludo, membros superiores e inferiores. Este paciente tinha, ao lado das lesões de AE, múltiplas lesões de verruga vulgar e de poroceratose (7).

Tentativas de isolar o DNA dos papilomavirus humanos (HPV) em biópsias de casos de AE, foram negativas (7,8).

O diagnóstico diferencial principal do acantoma epidermolítico é com as verrugas pelo HPV. Isto ocorre tanto com as lesões de face e do tronco (semelhança com a verruga plana), como com as lesões do escroto (semelhança com o condiloma).

Do ponto de vista histopatológico, destaque-se a necessidade de não se confundir com o assim chamado acantoma acantolítico. Neste, o fenômeno histopatológico principal é outro, pois se trata de acantólise e não de hiperceratose epidermolítica.

Nosso interesse em conhecer melhor o AE da região escrotal nos levou a organizar um protocolo de pesquisa, que já está em andamento. Através dele pretendemos fixar aspectos epidemiológicos, tais como a freqüência e a distribuição por grupos etários e conhecer melhor seus aspectos ultramicroscópicos. É possível que a ultramicroscopia contribua para compreender a histogênese desta curiosa lesão.

(*) Professor Emérito da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e Ex-Chefe da Clínica de Dermatologia da Santa Casa de São Paulo

(**) Anátomo-Patologista 


BIBLIOGRAFIA

1)  Shapiro L, Baraf CS. Isolated epidermolytic acanthoma. Arch Dermatol. 1970,101:220-3.

2) Hirone T, Fukushiro R. Disseminated epidermolytic acanthoma. Acta Derm Venereol. 1973,53:393-402.

3) Niizuma K. Isolated epidermolytic acanthoma: a histological study. Dermatologica. 1979,159:30-6.

4) Knipper JE, Hud JA, Cockerell CJ. Disseminated epidermolytic acanthoma. Am J Dermatopathol. 1993,15:70-2.

5) Metzler G, Sönnichsen K. Disseminierte epidermolytische akanthome. Hautarzt. 1997,48:740-2.

6) Sánchez-Carpintero I, España A, Idoate MA. Disseminated epidermolytic acanthoma probably related to trauma. Br J Dermatol. 1999,141:728-30.

7) Chun SI, Lee LS, Kim NS, Park KD. Disseminated epidermolytic acanthoma with disseminated superficial porokeratosis and verruca vulgaris in a immunosuppressed patient. J Dermatol. 1995,22:690-2.

8) Leonardi C, Zhu W, Kinsey W, Penneys NS. Epidermolytic acanthoma does not contain human papillomavirus DNA. J Cutan Pathol. 1991;18:103-5.

9) Lever WF, Schaumburg-Lever G. Histopatologia da Pele. São Paulo: Manole; 1991.p.478-9.

(*) Proença NG e Michalany N – Acantoma epidermolítico da região escrotal. An Bras Dermatol 2006, 81 (Supl 3) : 270 – 272).

 



 



CASO 1


CASO 2



Palavras-chave: Acantoma epidermolítico escrotal; Epidermolytic acanthoma of scrotum; Acanthoma epidermolyticum scrotalis.