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ACRODERMATE ENTEROPÁTICA MINOR

Acrodermatitis enteropathica minor

ACRODERMATITIS ENTEROPHATICA MINOR

Autor: Nelson Guimarães Proença

Inserida em: 01/02/2018


CASO (18619)

Menino com 13 anos de idade, cor branca, consultado no ano de 1967. O pai informa que desde um mês de idade apresentou irritação das regiões angulares dos lábios e da mucosa bucal. Ainda quando lactente começou a apresentar também lesões nas dobras inguinais e crurais, que se estendiam para as nádegas. A partir dos 8 anos os surtos de lesões também ocorreram em cotovelos, joelhos e pés. Este conjunto de lesões sempre alternou períodos de melhora e de piora, mas nunca desapareceu por completo. Nas últimas semanas as lesões dos pés se agravaram, motivando a consulta.

Os sintomas sempre pioram nos meses de verão, sobretudo em semanas de muito calor. Nas ocasiões em que a recidiva era mais intensa também ocorriam cólicas e evacuações diarreicas: quatro a cinco deposições por dia.

Ao exame dermatológico constatou-se que as lesões iniciais eram eritemato-papulosas, por vezes encimadas por minúscula vesícula, dessecada. Nas regiões inguino-crurais as lesões estavam agrupadas mas sem coalescer. Nos pés formavam placas mais amplas, eritematosas e edematosas, com borda microvesiculosa, contínua. Presentes também lesões nas comissuras labiais, que se estendiam para a superfície mucosa. Em joelhos e cotovelos o aspecto era psoriasiforme.

Foi submetido a biópsia, tomada em lesão da região crural. A histopatologia mostrou irregular acantose com algumas áreas de paraceratose, esta coincidindo com redução da camada granulosa. Em certos campos há espongiose moderada com migração de polimorfonucleares neutrófilos e mononucleares. Na derme superior há edema difuso, vasodilatação e congestão vascular, infiltrado neutrofílico e mononuclear (Dra Helena Muller).

A criança foi submetida a uma completa investigação laboratorial, que resultou normal. A dosagem do zinco foi feita em laboratório de categoria, através de espectrofotometria, por absorção atômica: 63,0 mcg (normal 55-150 mcg). Portanto, o zinco estavapróximo a seu limite inferior. Decidiu-se pelo tratamento de prova.







O paciente foi então tratado com sulfato de zinco (Zincopan), 3 comprimidos por dia, com evolução favorável e extremamente rápida, ocorrida já após alguns dias. As duas últimas fotos mostram o “antes” e o “após” duas semanas de tratamento.

Em todas as ocasiões em que suspendeu o tratamento ocorreu a recidiva, mas sempre foi possível repetir a medicação e ocorrer a recuperação completa. Foi acompanhado com revisões anuais — por 6 anos — sempre estava perfeitamente bem. Completou seu desenvolvimento e atingiu a idade adulta, em perfeitas condições.







Comentários

Em nosso planeta Terra há muitas regiões onde há enorme carência alimentar, afetando milhões — talvez bilhões — de criaturas. As deficiências nutritivas decorrentes da insuficiência de ingestão de vitaminas já estão bem conhecidas, desde o princípio do Século XX. Já os quadros clínicos que acompanham a deficiência de microelementos foram melhor descritos e se tornaram conhecidos na segunda metade do Século XX. Este é o caso da Síndrome — melhor seria dizer das Síndromes — da Deficiência de Zinco.

O quadro da Acrodermatite Enteropática (AE) foi descrito por Thore Brandt, dermatologista sueco, em 1936 (1), acreditando ele que era o resultado de múltipla deficiência nutritiva.

Foi somente em 1974 que surgiu uma primeira publicação, comunicando a importância do zinco na etiologia da AE (2) O autor da publicação, Gerd Michaëlsson, informou em seu texto que o dermatologista E J Moynahan é quem havia comunicado, em reunião de especialistas, os bons resultados obtidos em um caso por ele tratado com sulfato de zinco. Tendo conhecido tal relato, Michaëlsson prescreveu sulfato de zinco, 200 mg três vezes ao dia, para o paciente que estava a seus cuidados. Os resultados foram surpreendentes, tendo publicado trabalho. O próprio Moynahan, introdutor da utilização do sulfato de zinco em AE, só fez sua comunicação em seguida, na revista Lancet (3).

Formas menos graves de AE começaram a ser vistos quando da criação, nos hospitais, de áreas de Medicina Intensiva, especialmente voltadas para o atendimento de pacientes graves. Esta criação de setores de Emergência ocorreu no final da década dos anos sessenta, ainda nos primeiros anos da década de setenta. Foi então que se constatou que os pacientes submetidos exclusivamente à medicação e nutrição parenteral começaram a apresentar alterações da pele, semelhantes as da AE, porém de intensidade muito menor. Reconhecendo ser a carência de zinco a origem de tais alterações clínicas, a administração suplementar deste micro elemento resolveu a problema. Como designar estes quadros clínicos? Porque não considerar como uma forma minor da AE?

Nosso paciente não tem sintomas exuberantes como os que são vistos na AE. São mais semelhantes aos vistos nas Enfermarias de Emergência, de menor intensidade.  O caso que apresentamos pode então ser perfeitamente rotulado como Acrodermatitis enteropathica minor.

Quanto à razão de ter baixo nível de zinco, na dosagem sérica, provavelmente é um processo constitucional, congênito. Quanto ao conjunto de sintomas, podemos destacar:

a) Estava presente desde a infâncias;

b) Estavam associadas, as alterações cutâneas e gastrointestinais;

c) Foi confirmado o baixo nível do zinco sérico;

d) Ocorreu remissão completa e rápida, tanto dos sintomas dermatológicos como do aparelho digestivo, após a administração de sulfato de zinco;

e) O quadro recidivava com a suspensão da medicação, exigindo portanto seu uso contínuo.

Estes argumentos são suficientes para permitir que o caso seja diagnosticado como AE. Não obstante, como as manifestações clínicas são menos intensas do que aquelas que são observadas na literatura médica, é justificado introduzir o conceito de existirem duas variantes da AE: a Minor e a Major.

 

REFERÊNCIAS

(1) Brandt T — Dermatitis in children disturbances of general conditions and absorption of food. Acta Derm Venereol Supp, Stockh, 1936, 17: 513-546.

(2) Michaëlsson G — Zinc therapy in acrodermatitis enterophathica. Acta Dermatovener (Stockholm( 1974, 54: 377-381.

(3) Moynahan E J— Acrodermatitis enteropathica. Lancet, 1974, 399.


Palavras-chave: Acrodermatite enteropática minor, Acrodermatitis enteropathica minor, Acrodermatitis enteropathica minor